
Esta pessoinha veio para minha casa quando tinha dois meses.
Antes ela morava em uma gaiolinha, num aviário. Passei em frente um certo dia e então vi aqueles olhinhos tristes me pedindo pra tirá-la dali o mais rápido possível, então na manhã seguinte arrastei meu pai e trouxemos ela pra casa. Custou 10 reais na época.
Esta pessoinha veio numa caixa de papelão até em casa. Mesmo que eu quisesse levá-la nas mãos, não me foi permitido e então a cada miado de medo que eu ouvia sair daquela caixinha era um pedaço do meu coração que se partia.
Esta pessoinha estranhou no princípio o novo lar, mas com o tempo foi se adaptando a ele, e nós a ela.
Esta pessoinha me deixou louca na época do primeiro cio (e nos demais também) e estranhamente felizes quando foi mamãe de 6 filhotinhos com carinha de ratos. Lindos ratos por sinal, que de tão pequeninos dava medo até de tocar.
Esta pessoinha me comoveu com seu zelo e carinho com os filhos e me comoveu mais ainda quando se podia notar a tristeza dela ao ir vendo a quantidade de filhotes diminuir cada vez mais. Eles já estavam grandinhos para serem adotados e quanto mais filhotes iam embora, mais ela ficava apegada aos restantes. As duas últimas que ficaram não tive coragem de doar. Agora eram três gatas e carinho em triplo.
Esta pessoinha ficou atordoada por dias quando percebeu que a filha mais carinhosa com ela havia sumido. Podia ver tristeza em seus olhos, mais uma vez. Mas dessa vez era algo diferente. Parecia que ela já sabia o que tinha acontecido. Foi uma tristeza compartilhada, de alguma forma.
Essa pessoinha passava um ar de melancolia vendo a segunda filha parada, triste no canto, tendo todo o cuidado do mundo, sendo alimentada na boca porque não tinha mais forças pra comer. Mais triste ainda foi ter que separá-las de conviverem juntas. Infelizmente não tinha mais volta e não podíamos arriscar que ela pegasse a mesma doença. Outra perda, novamente perambulando pela casa, procurando por alguém, cheirando lugares de dormir e olhar triste. Reforça ainda mais minha teoria de que animais não são puramente instinto.
Essa pessoinha deixou o tempo passar, retomou a alegria e achou companhia na presença do gato vizinho. Carinhosamente apelidado por nós de Doido, Maluco, Vampiro, Severino e por outros ainda de Blade Miao. Esse gato tinha todos os defeitos possíveis, metido, intrometido, barulhento, enxerido, olhar psicótico, mas foi uma companhia para ela. Até se mudar.
Essa pessoinha foi operada e internada na clínica veterinária, quando veio pra casa parecia aliviada por estar finalmente no lar. E claro, enlouquecia a todos que tentavam seguir a recomendação de "não deixe ela pular, os pontos podem abrir".
Esta pessoinha tem 7 anos hoje. Está na meia idade felina e ainda tem muita vitalidade, ainda morre de medo de andar de carro, ainda morre de medo de veterinário, ainda adora receber carinho (quando está afim), ainda adora peixe, ainda adora pular de um lugar para o outro, ainda me assusta com seu jeito andeja de ser, sem se importar se algum maluco possa roubá-la de mim, ainda provoca e desafia cachorros, ainda tem muita alegria pra nos proporcionar , ainda tem o poder de nos surpreender e ainda tem muito o que viver pela frente.
Essa pessoinha e eu tivemos uma convivência de altos e baixos, hoje em dia sofre com meus ataques Felícia.
Esta pessoinha é como um tesouro pra mim, cada dia que passa este sentimento se torna mais forte.
Vou cuidar e protege-la até o fim. =)